Rishikesh: Como É Ficar Em Um Ashram Indiano

Muitas vezes na vida precisamos dar um “tiro no escuro” e mudar completamente o estado das coisas. Aos 24 eu senti na pele a famosa crise dos vinte: de alguma forma meu modus operandi entrara em falha e eu precisava fazer algo urgente comigo.

Rishikesh, Índia

Pela primeira vez desde que sai da faculdade eu tinha tempo e grana de sobra para desfrutar por semanas as minhas tardias férias laborais. Pesquisei bastante e quase fiz meus pais surtarem quando informei que sairia sozinha pela rota do Himalaia, ou seja, Índia, Nepal e Tibet. Essa foi, até a data que escrevo esse post, uma das decisões mais certas que já tomei.

Rishikesh, Índia

De fato, não há como pensar em Índia sem lembrar dos retiros espirituais e dos cursos de yoga. Há anos pratico yoga, mas nunca com a dedicação ou rotina que gostaria. Então fiz do útil ao agradável e me dei de presente sete dias em um ashram (retiro) indiano.

Mas Lívia, como é ficar em um ashram?“: Meus amigos, é o céu na terra!

Ganges, Rishikesh

Você precisa saber agora:

Moeda: Rúpia indiana (mas usei dólar norte-americano para pagar o retiro)

Golpinhos/dia: US$ 21,00 (o total do curso de yoga foi de US$ 100,00)

Se perder, vai ter que voltar: Visite a cerimônia hindu que acontece às margens do Ganges durante o entardecer. Ela ocorre bem na nascente e você pode perguntar a qualquer morador ou até mesmo na recepção de seu ashram mais informações sobre.

Sobraram Golpinhos? Faça um city tour por Rishikesh.

Nascente do Ganges, Rishikesh

Rishikesh é a capital mundial da yoga, capaz de abrigar centenas de indianos e povos do mundo todo que buscam se especializar na prática e no modo de vida. Nessa cidade você vai achar diversos tipos de retiros: yoga, meditação, de silêncio, etc. E o bacana é que os preços são bastante acessíveis.

Ganges, Rishikesh

Lembro que pesquisei muito, mas muito sobre o assunto. E um dia, enquanto voltava de uma viagem à Búzios – zona litorânea do Rio de Janeiro – eu achei o blog Mochilão Trips, da Carol Moreno, que me ajudou bastante na escolha. Na semana seguinte, entrei em contato com quatro ou cinco lugares até preencher o formulário do Sadhana Mandir e ser aceita para o intensivo de yoga que iria rolar no final de ano.

Sadhana Mandir Ashram

Então foi assim: retiro escolhido, passagens compradas (leia sobre o meu relato indiano completo clicando aqui), cara e coragem. Eu estava pronta para que a vida me desse mais uma lição (e nessa altura nem imaginava o quanto de aprendizagem e gratidão carregaria comigo).

Rishikesh, Índia

Por que Rishikesh?

Basicamente porque me identifiquei com o retiro já no primeiro contato com eles via e-mail. Como meu ponto de entrada na Índia foi em Déli, comprei antecipadamente a passagem de trem em direção à Rishikesh. Vou abrir esse parêntese logo abaixo.

Rishikesh, Índia

Na época, não imaginava o sufoco que estaria prestes a passar! Durante o inverno indiano é comum as estradas e trilhos ficarem cobertos de névoa, o que impacta no atraso do serviço. Então, o que era para ser uma viagem de quatro horas e meia tornou-se uma de doze horas, entre passagens canceladas e vagões errados.

Em suma, assim que percebi que cancelaram meu trem, eu me enfiei no próximo que seguiria viagem para o meu destino e, obviamente, quando o guarda solicitou a passagem, ele percebeu que eu não havia trocado a antiga no guichê de origem.

De fato eu tentei, mas fui incompreendida e depois disso foi uma sucessão de equívocos. O desfecho lamentável da história é que viajei oito horas a mais que o normal no vagão mais lotado de todos. Conheci crianças encantadoras e um povo ainda curioso com o “estrangeiro”, mas de coração aberto a ajudar e a compartilhar histórias do hinduísmo pelo caminho. Foi, sem dúvidas, uma viagem cheia de surpresas.

Mas bem, fecho o parêntese e volto à  cidade escolhida. Rishikesh fica no distrito de Dehradun (atenção, pois esse é o nome de destino nos tickets de trem) e aos pés do Himalaia. Às margens da nascente do Ganges, sábios, gurus, peregrinos visitam esse lugar em busca de conhecimento.

Rishikesh, Índia

Da estação de trem – ou até mesmo do aeroporto – até o centro você vai demorar mais uns quarenta minutinhos (caso o trânsito indiano colabore) de carro. Eu pedi ao Ashram que esquematizasse meu pick up e custou Rs. 1.000, R$ 50,00.

Um dos pontos mais legais de Rishikesh é que do outro lado do Ganges fica uma reserva ecológica e, muitas vezes ao admirar o rio sagrado, pode-se reconhecer a figura de um elefante a banhar-se ou até mesmo animais menores correndo de um lado ao outro. Trata-se de uma cena indescritível de pureza e beleza.

O lugar ficou mundialmente conhecido após os Beatles se hospedarem por meses em um ashram na década de 1960.

Às margens do Ganges

Como foi a rotina?

Como já mencionei, escolhi um retiro voltado à  pratica da yoga. Éramos quinze alunos de todo o mundo: tinha uma americana que largou o trabalho estressante para buscar um pouco de paz, um colombiano que morava na Índia há seis meses graças a um job rotation internacional, outro canadense que terminara o casamento e estava na busca de se reconectar. Enfim, gente de todos os meios e histórias de vida.

Rishikesh, Índia

Acordávamos às cinco e meia da manhã para um breve chá, seguido da primeira aula do dia. Eram ao todo três aulas e tínhamos dois horários – um de manhã e outro à  tarde – dedicados para meditação individual e outra em grupo e também à prática de leitura. Aqui a alimentação é toda vegetariana (e uma delicia!). By the way, foi na Índia que parei de comer carne e essa foi uma das decisões que mais me fazem feliz até hoje.

O meu quarto era bem simples e acabei não dividindo com ninguém. Como era época de Ano Novo, o ashram não estava completamente cheio. As atividades encerravam-se por volta das oito da noite.

Templo hindu em Rishikesh, Índia

O acesso à  internet era limitado. Como o alinhamento interno das emoções e sensações é um dos objetivos do local, aconselha-se evitar o contato com o mundo externo. Afinal, não viajamos meio mundo para ficarmos trocando mensagens com o exterior, não é mesmo?

Ah! Muitos me perguntaram sobre a prática do silêncio e das cerimônias religiosas. O Ashram que fiquei não obrigava o silêncio, sendo esse totalmente opcional. Já as cerimônias não foram realizadas dentre as nossas atividades, mas para quem interessasse, poderiam ser vistas e participadas no Swami Rama Sadhaka Grama Ashram, que fica ao lado.

Rishikesh, Índia

O Guru da casa – Swami Rama (agora meu mentor) – já seguira o seu caminho para um outro grau de evolução, mas nem por isso deixa de ser estudado e seguido por àqueles que aqui dedicam seu tempo.

Dicas para quem está escolhendo o primeiro retiro:

Acredito que a primeira pergunta que devemos nos fazer é: o que falta em mim? Apenas quando temos a consciência que não estamos sós e de que tudo é uma transição – tanto de pessoas, quanto dos acontecimentos que nos cercam – ficamos preparados para iniciar nossa caminhada rumo a algo maior.

Prática de yoga de frente ao Ganges

Foi apenas quando me vi fragilizada, após minha vida ter virado de cabeça para baixo, que enxerguei a clara necessidade do estudo de mim mesma e de minhas ações como um todo. Independente de religião ou crença, sigo acreditando que não estamos aqui à toa nem mesmo é à toa que você lê esse post agora.

Checklist

Seguro obrigatório para brasileiros: Não, porém é essencial

Vacina obrigatória para brasileiros: Vacina contra a febre amarela dez dias antes do embarque. Aconselha-se que o cidadão brasileiro solicite, nos postos da ANVISA nos aeroportos do Brasil, a carteira internacional de vacinação contra febre amarela no ato.

Imigração: Não tive problemas.

Documentação para brasileiros: Passaporte e Visto. O meu visto foi de múltiplas entradas e eu o solicitei no Brasil. Para mais informações, clique aqui.

Importância Global: Rishikesh é considerada a capital mundial da yoga. No final de 2015 recebeu o titulo de “cidade patrimônio cultural” pelo ministro de Turismo da Índia, por se tratar de um lugar de importância religiosa, dedicado à alimentação vegetariana e à proibição de bebidas alcoólicas.

 

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